3º livro da Trilogia.
A principio devo ressaltar o seguinte: A trilogia é fantástica. Desde o começo os acontecimentos vão se desenrolando de um jeito muito bem delineado, e as coisas tornam-se dinâmicas e em harmonia com o enredo. Manel Loureiro escreveu uma obra prima, em pensar que tudo nasceu de pequenas histórias publicadas na internet.
SUPER-RESUMO DA HISTÓRIA
Bom, resolvi criar subtemas dentro da análise pra deixar tudo mais claro.
“O advogado, Lucía, Pritchenko e Lúculo fugiram das canárias em um navio pequeno, foram pegos por uma tempestade louca, depois acabaram resgatados por um transatlântico chamado Ithaca, e lá acabaram conhecendo o reverendo Greene, o Oficial Strandgard e o Capitão Birley, que se dirigiam rumo à África para pegar Petróleo, que naqueles tempos era como se fosse Ouro, e voltar para os seus respectivos Lares em Gulfport, cidadezinha ao sul do Texas nos Estados Unidos que manteve-se de forma muito surpreendente à margem da pandemia. Lá desenrolou-se a maior parte da trama, onde os protagonistas tiveram que enfrentar o regime de um fanático religioso que dividiu a cidade entre brancos, que viveram em Gulfport, e os chamados “hilotas” que viviam em Bluefont, subúrbio do local. Eram negros, índios e mexicanos, e que na visão de Greene eram a personificação do pecado na terra. A história também teve uma trama paralela na maior parte, e que no final foi importante. A Coréia do Norte foi o único país a sobreviver ao Apocalipse graças ao seu regime de governo tirano e autossuficiente. Os governantes de lá mandaram uma tropa para Gulfport em uma viagem insana afim de dominar o Petróleo que eles tinham em grande escala, o que acabaram sabendo graças a privilegiadas, embora primitivas, sintonias de rádio. Seu objetivo era tornar-se o novo soberano do mundo, sendo a Coréia do Norte a maior potência mundial de todas.”
PERSONAGENS
Agora vou citar personagens, pelo menos os que tiveram maior foco na história, analisa-los e dar uma opinião sobre os mesmos.
Reverendo Greene: Começo logo com o principal vilão, diria até o mais terrível de toda a trilogia. O cara que foi o responsável por todos os problemas desse livro. Ele era um fanático religioso que se aproveitou de toda a situação e do caos do Apocalipse para se autoproclamar como o escolhido de Deus, virando líder de Gulfport e mandando e desmandando no lugar. As pessoas acreditaram nele não só por causa disso, mas porque sua astucia e seu senso de liderança, mantiveram o lugar protegido enquanto o mundo caía em ruínas. Greene era extremamente preconceituoso, racista, e justificava tudo isso dizendo que os negros eram a escória divina e pecadores por natureza, e que as mulheres nasceram para servir os homens. É claro que era absurdo, mas em um mundo pós-apocalítico as pessoas não ligavam muito para bom-senso, e ética e graças a proteção que lhes era dada, serviram e abdicaram de tudo para seguir Greene. Menos Lucía. Ela não aguentou a conduta de Greene e imediatamente fugiu para Bluefont, subúrbio do lugar, onde viviam os hilotas. A partir daí desencadeou-se os acontecimentos mais importantes da história. O personagem foi muito bem criado partindo de um princípio bem comum na sociedade real, que é o fanatismo. O fanático religioso praticamente dá adeus a lógica para criar um mundo só seu, com suas leis interpretadas da bíblia, passando muitas vezes por cima do bom-senso comum e das suas próprias vontades para fazer o que consideram certo, ou para estarem de acordo com a vontade do Deus que creem. Green fez o diabo em nome de Deus: Ele matou inocentes sendo preconceituoso e racista, fazendo o que chamava de limpeza étnica, onde segundo ele, apenas os brancos puros deviam viver, infectou o Advogado com o vírus TSJ, assassinou Pritchenko nos últimos capítulos, e acabou com uma justa morte no final. Sempre que havia um perigo eminente o joelho dele doía, quanto maior o perigo maior a dor que sentia, e isso foi uma parte absolutamente dispensável e sem nexo do personagem.
Carlos Mendoza: Carlos “Gato” Mendoza, foi um personagem bem impactante. No começo, achei que era uma espécie de “mocinho numero dois” da história, se contrapondo ao Advogando e criando um triângulo amoroso juntamente com o mesmo e Lucía. Porém quando Lucía, encantada por ele, fugiu para Bluefont, o modo como ele a tratou e o modo como ele e seu bando espancaram Pritchenko moldaram o personagem como um anti-herói. Ele era justo, e queria a liberdade dos hilotas dos desmandos de Greene, mas não fazia o tipo do típico herói clássico. Ele era bossal, nenhum pouco respeitoso, e tinha a mania de tratar as pessoas ao seu redor como lixo. No fim, durante o conflito final, acabou morto.
Hong e Kim: General e Capitão, ou Capitão e General... nem sei a ordem. Eles foram os principais líderes do comboio vindo da Coreia do Norte em busca do petróleo de Gulfport. Atravessaram todo o Texas em uma viajem difícil e chegaram ao ápice do conflito entre os homens de Greene e os hilotas. Ao atacarem um grupo isolado de Greene em um povoado, descobriram sobre a importância do Cadoxplan, que era um remédio que impedia a manifestação do vírus no corpo humano, e ganharam com isso uma missão extra e ainda mais valiosa. Porém falharam em ambas. Kim morreu tentando tomar o navio Ithaca de Birley em uma explosão tosca, pois seus homens explodiram o navio para tirar uma barreira que os impedia de passar no convés. Acontece que colocar explosivos em um transatlântico é uma burrice inacreditável, mas possível. Essa barreira foi colocada lá para separar os brancos dos hilotas quando estes tinham que viajar para outros continentes. Hong morreu no conflito final em Gulfport.
Malachy Grapes: O braço direito de Greene. Usou essa condição para executar toda a maldade que existia dentro de si. No mundo de antes era um detento inescrupuloso, mas o mundo virou e graças à loucura de Greene acabou um dos guardas “verdes” da cidade de Gulfport. Embora tenha sido o terror para o advogado, acabou sendo morto por Pritchenko em uma cena épica, onde ambos lutaram entre esquivas e ataques com faca. A cena mais impactante dele foi quando o mesmo cortou o rabo de Lúculo na frente do advogado, com toda a frieza que só um assassino em série pode ter. Matava por prazer, e as condições daquele mundo eram perfeitas para ele em todos os sentidos. Ele não se importava com a conduta de Greene, só usava isso a seu favor para ser o que queria ser. Um personagem brutal, e que deixou a história mais rica em termos de enredo. Uma espécie de Basílio Irrisari (vilão do segundo livro) 2.0.
Birley: Capitão do Ithaca, ele foi um problema para os protagonistas no inicio, sendo altamente inconveniente os vigiando o tempo todo. Passou o livro todo como mero quadjuvante, mas teve participação importante no final, quando Kim atacou o Ithaca visando toma-lo junto com todo o Petróleo lá existente. Ainda assim acabou assassinado, momentos antes da estúpida explosão.
General Strandgard: Líder dos Justos. No começo achei que era apenas mais um dentre aqueles misteriosos personagens do Ithaca, porém mostrou-se um personagem íntegro, que queria a igualdade e que defendia a causa dos hilotas. Ajudou a comunidade de Bluefont por baixo dos panos, juntando como podia cladoxpan suficiente para eles, e também os auxiliou nos planos e no ataque a Gulfport. Em pedido de Lucía, deu aquela maleta contendo mantimentos, cladoxpan e o Lúculo para o Advogado quando o mesmo ia ser enviado para o deserto naquele “vagão dos infernos”, fato que deu condições ao advogado para sobreviver em meio ao caos e ao terror naquele vagão escuro e fétido. Passou um breve período fora da história mais reapareceu de forma surpreendente quando Mendoza, Prit e os outros tramavam o ataque. Até aquele momento eu não havia sequer imaginado que ele era dos justos, embora sua conduta misteriosa e suspeita tenha dado algumas pistas. Foi absolutamente surpreendente. Um personagem muito relevante e que deu “tempero” à história.
Alejandra: Teve participação fundamental ao ajudar Lucía a atravessar a passagem entre Gulfport e Bluefont. Também ajudou Prit com aquele tiro pra cima, evitando que os capangas de Mendoza acabassem com ele, além de evitar que Mendoza maltratasse Lucía demais, já que Mendoza a tratou com um desdém impressionante, e ainda tinham os capangas que queriam se aproveitar e depois possivelmente mata-la. Aparentemente Alejandra tinha uma queda por Mendoza, mas isso não ficou absolutamente claro. Foi estuprada pelos capangas de Grapes, e acabou salvando a vida de Lucía novamente, ao atacar Grapes no momento em que ele estava a ponto de assassiná-la. Nesse instante Grapes a matou, e nesse meio tempo Lucía conseguiu fugir.
Lucía: Ela sobreviveu! Sendo a mocinha e o amor do advogado, ela tinha que sobreviver mesmo. Cometeu a burrice de ter uma paixonite por Carlos Mendoza, ao encontra-lo enquanto procurava o sapeca Lúculo no navio. Além disso seu senso de justiça era muito forte, e ela não aceitava viver naquele lugar sabendo como os hilotas era tratados, até discutiu com Greene, numa espécie de começo das desavenças entre eles. Foi para Bluefont, e acabou maltratada por sua paixonite, chegando até a perder sua blusa deixando os seios a mostra. Ainda teve que ver Pritchenko ser espancado, e ainda sofreu horrores sem saber o que aconteceria com o advogado que havia sido capturado por Greene. No final, mostrou que o amava. Sabendo que não devia tocar em seu amado mesmo após reencontrá-lo depois de toda aquela angustia, pois ele estava ferido e contaminado por Greene com o vírus TSJ, ela o tocou, dizendo que se era pra eles ficarem juntos, que fosse na mesma condição, na vida, na morte, ou mesmo na morte-vida. Mostrou um amadurecimento muito grande do livro anterior pra esse, e cumpriu o seu papel. No final, tive a grata surpresa de saber que essa personagem foi inspirada na mulher do autor do livro.
Cientista que criou o cladoxpan: Foi ele que criou o remédio que inibia os efeitos daquele maldito vírus do Daguestão. Ele vivia fechado em seu laboratório e não tinha noção da realidade, sendo dessa forma manipulado por Greene. Acabou morto, possivelmente por Greene (não ficou claro). Nem lembro o nome dele, só lembro que ele era Italiano e ainda tinha a ideia, àquela altura estúpida, de ser um renomado cientista em um mundo que já não existia mais.
Viktor Pritchenko: Que personagem incrível. O ucraniano, baixinho, turrão, do bigode loiro foi espetacular. Ele fez de tudo! Aprendeu espanhol fluente em meio ao caos, enfrentou os maiores brutamontes e não cedeu jamais... tinha “culhões” mesmo o baixinho. Ajudou o advogado constantemente durante toda a trilogia, mas, nesse livro, acabou se separando dele em um breve período, o que custou muito ao seu fiel amigo, que sofreu o diabo sem a ajuda do cara que esteve com ele quase que o tempo todo, desde aquele encontro inusitado no navio do Lunático Ushakov no porto de Vigo. Quando o advogado apareceu no horizonte, desacordado, com as veias pulsando em cima de uma mulinha, depois de ter tentado sobreviver no deserto, foi ele que o salvou, como de costume, para que ambos pudessem lutar contra Greene e sua corja. Foi ele que apanhou sem baixar a cabeça para defender a honra de Lucía, e foi ele também que no final acabou com Malachy Grapes mesmo estando em considerável desvantagem. Ele foi o cara da história, e na minha opinião não merecia ter morrido, ainda mais daquela forma, com um tiro de Greene, e pelas costas. O russo, quero dizer, o Ucraniano foi demais!
Advogado: O mais legal desse personagem, voltando a ressaltar já que comentei sobre isso em outras análises, é que ele não tem poderes extraordinários nem armas ilimitadas... ele era só mais um a tentar sobreviver, e à fazer seus entes próximos sobreviverem também. Nesse livro não foi diferente, ele acabou cedendo às suas convicções aceitando viver daquela forma em Gulfport, para proteger sua recém formada família. Em meio à burrice de Lucía, acabou tentando fugir, pedindo que Prit a achasse, agindo em Gulfport para poder fugir com suprimentos e com o Cladoxpan, o que deu muito errado. Foi sequestrado, humilhado, viu Lúculo sofrer nas mãos de Grapes, foi contaminado por Greene com o vírus que o próprio Greene tinha em sí, e depois ficou naquele vagão em um terror sem precedentes, com pessoas se transformando pouco a pouco em mortos-vivos sem ninguém poder fugir daquele lugar. Pessoas se pisoteando, pessoas morrendo ao seu redor, tiros, explosões, o advogado teve de superar inúmeros desafios até poder confrontar-se com o pior inimigo que tivera em toda trilogia, que foi o reverendo Greene. Mas como de praxe, o mocinho conseguiu, e com “estilo”, arrancando a cabeça de Greene, e depois jogando ela nas chamas do prédio da prefeitura, onde as cenas finais da batalha aconteceram. No fim, seis anos depois, voltou a Pontevedra para sua antiga casa, àquela onde tudo começou no primeiro livro, com sua mulher grávida, e já com um filho, onde pôde relembrar todos os momentos e sentir orgulho por ter conseguido passar pela maior prova que a humanidade passou em todos os tempos. Nas ultimas frases do livro, finalmente, depois de tudo, Lucía disse o nome do advogado: Manel! Sim, Manel! O autor do livro é também o personagem principal da trama, ou seja, ele inspirou-se em si mesmo para criar o grande protagonista da trilogia. Eu já suspeitava, mas mesmo assim achei fantástico, e um ótimo desfecho para livro. Manel foi um grande personagem, e Manel é também um grandíssimo autor. Fantástico.
Lúculo: O super-gato Lúculo perdeu seu rabo, sofreu, mas sobreviveu a tudo. Passou boa parte da história a margem dela, mas quando apareceu, teve destaque. Dentre todas as cenas importantes uma marcou. Quando o advogado estava perto de desistir, no deserto, sem água e sem cladoxpan, foi o Lúculo que tentou animá-lo, em uma demonstração de carinho que só uma animalzinho como esse pode dar. A bola laranja de pelos voltou a Pontevedra sem o seu rabo, mas com o título de Gato mais bad-ass da história. Ele, Lucía, Manel, o pequeno Pritchenko (filho do casal, e obviamente uma homenagem ao Ucraniano) e ainda a criança que estava no ventre de Lucía, iam recomeçar, em um novo mundo, sem não-mortos, ainda muito hostil, mas com muita esperança.
CONCLUSÃO
Curti muito ler esse livro. Não houve muitas coisas sem sentido e desde o começo a proposta foi respeitada. Achei genial a sacada da sobrevivência da Coréia do Norte ao apocalipse. De fato, se acontecesse algo do gênero, é muito possível que a Coréia com seu regime de governo ficasse a margem de tudo. O foco nos personagens foi muito bom, onde todos foram bem abordados, seus anseios, suas tristezas, suas euforias, seus amores, seus sonhos e também seus piores pesadelos tiveram um destaque importante. Vale destacar também a misteriosa mulinha que salvou a vida do advogado no deserto... creio que aquilo tenha sido uma demonstração de fé por parte do autor, apesar da abordagem acerca do universo do fanatismo religioso. Tudo isso faz com que essa obra seja uma verdadeira obra prima, e sem dúvidas valeu muito a pena ter tomado parte do meu tempo para ler essa trilogia. Manel está no meu hall de autores favoritos e sem duvidas, merece todo o crédito pela forma que abordou o universo zumbi, de uma maneira tão humana e sem excessos.

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