Autenticidade
Em uma sociedade onde a banalização daquilo que é nefasto é a ordem do dia, ser autêntico é um gigantesco ato de resistência. Desrespeito e violência - ainda que veladas - ganham status de eventos comuns e aceitáveis, e aqueles que enxergam o absurdo da existência em seu escopo mais real, pagam o preço de estarem a parte da norma vigente, sendo considerados estranhos e até mesmo insanos. Paradoxalmente, a verdadeira loucura habita na cotidianidade geral.
É realmente muito comum alguém se sentir sem rumo ou mesmo vazio quando precisa se defrontar com dilemas os quais sequer tem a capacidade de compreender profundamente. Isso é vastamente difundido porque tal compreensão exige um refinamento cognitivo cujas bases de possibilidade de estabelecimento não são fornecidas por uma sociedade que, massivamente, difunde a ignorância como bem supremo. Escolas sucateadas, professores mal remunerados, ofensas disfarçadas de piadas, tudo isso perpetua uma sociedade na ignorância, o que serve aos interesses de poderes vigentes. Um ciclo que se retroalimenta.
Mesmo eu, orgulhoso da minha própria capacidade intelectual, não conseguia até pouco tempo ter a clareza de pensamento necessária para compreender tudo isso. Predominantemente solitário, meus apontamentos sobre os motivos disso residiam em culpar minha própria pessoa, quase que exclusivamente, de modo a aceitar a realidade cruel sem questioná-la devidamente. E no final das contas, me dei conta de que sempre fui parte da "cura", não da "doença". Mesmo que eu tenha responsabilidade em grande medida do meu próprio destino, a sociedade impessoal e fria se impôs diante de mim de maneira tão sutil que eu não consegui articular pensamentos que, hoje, me parecem tão óbvios.
E então, de alguma maneira, entendi que tentar me adequar ao mundo - automatizado perante aquilo que se apresentava a mim como normal, como aquilo que deveria ser feito - foi um erro. A minha autenticidade, derivada da minha capacidade intelectual desenvolvida, protegida pela minha criação em detrimento do que a sociedade incentiva, me garantiu a chance de chegar a esse exercício de pensamento que, finalmente, me trouxe serenidade plena.
Então entendi. Minhas poucas amizades e solidão culminante eram apenas um sintoma de uma sociedade ruim. A autenticidade é assustadora para àqueles que não conseguem ousar ir além das cristalizações dos grupos os quais fazem parte. A necessidade de ser aceito e querido, bem como o sentimento de pertencimento e estabilidade, além do pânico de mostrar-se vulnerável, levam milhares de pessoas a defenderem sistemas até mesmo desumanos, em prol de proteger um sentimento de pertencimento e domínio que - embora frágeis - fornecem uma ilusão de controle e felicidade. É assustador para as pessoas descobrirem que viveram uma vida de ilusão, ou que nunca foram realmente amadas, e muitas vezes o contato comigo fornece esse tipo de reflexão. Vejo que os padrões, as instituições tais como as escolas e os templos, e até mesmo convenções como o casamento, servem apenas como arestas de um sistema fechado que minam a liberdade humana, e reforçam essas necessidades supracitadas. A menos que algo te tire do padrão (algo que pode nunca acontecer), você pode viver a vida inteira alienado de si mesmo.
Aos olhos de alguém que não consegue ir além do que os olhos podem ver, uma pessoa autêntica é insana, então o afastamento é natural. Entender isso me trouxe uma paz tão grande que transformou meu desconforto de solidão em desfrute de solitude. Não por acaso, as amizades que tenho hoje estabelecem uma dimensão diferente para mim, porque representam pessoas que permaneceram fiéis a mim, um ser humano que tem a ousadia de não ser um fingidor, uma gota diferente do oceano.
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